Grata Surpresa

          

       Começo afirmando que a leitura de O Mal do Século de Junior Berts, disponível para aquisição na Amazon, foi uma experiência literária maravilhosa. Costumo ler os clássicos da literatura, pois sempre acho que estou em dívida, que não li tudo o que devia. Às vezes, entretanto, intercalo obras mais recentes para me atualizar. Não conhecia a obra nem o autor, mas quando o próprio entrou em contato comigo sugerindo a leitura, não pude recusar. Encontrar esta história foi uma grata surpresa.

A narrativa em primeira pessoa conta a jornada de Vincent Blessington (nome sugestivo rsrs), um jovem lorde inglês que vive uma vida despreocupada regada a bebedeiras e outros prazeres mundanos enquanto escreve suas peças teatrais. Ele escreve sua história em um livro que é lido pela personagem Sarah, interlocutora do protagonista ao longo do enredo. Enquanto ela lê, tomamos consciência dos acontecimentos na vida de Vincent.

Os fatos narrados em 1911 referem-se a eventos iniciados em 1832 na Inglaterra e, posteriormente, em outros lugares como Veneza. Não vou contar a história de Vincent. Para conhecê-la, você terá que ler. Recomendo que o faça. Você não vai se arrepender!

Continuando... Inserida na fase do ultrarromantismo, a narrativa traz elementos característicos desse período: o exagero sentimental, pessimismo e tédio, fuga da realidade, obsessão pela morte, idealização do amor, subjetivismo e egocentrismo, gosto pelo mórbido e macabro, ironia e sarcasmo, saudosismo e idealização do passado. 

       Assim como ocorre em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o leitor é convidado a interagir com o autor-personagem Vincent e com o autor Junior Berts. O trabalho impecável de ambientação e caracterização e a presença de um humor ácido fazem com que nos sintamos parte integrante da obra desde o início como observador e interlocutor.

Reverenciando grandes escritores e poetas, o livro faz referência a diversas obras e autores: O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, O Corvo de Edgar Allan Poe e Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. Cita ainda Alice no País das Maravilhas de Charles Lutwidge Dodgson sob o pseudônimo de Lewis Carroll, Victor Hugo, Charles Dickens e Lord Byron, descrito na obra como um amigo próximo de Vincent.

O protagonista é bem construído. Se há alguma dificuldade em se identificar com Vincent, não é difícil compreendê-lo nem sua motivação. Os demais personagens cumprem perfeitamente seu papel na trama, com destaque para Clementina, Erinye, Arctur, Aveline, Briana e Deyvi Thomas.

Embora um pouco lenta nos primeiros capítulos, a história acelera o ritmo a partir da viagem de Vincent, prendendo a atenção do leitor, deixando-nos ansiosos para conferir o que acontece depois. Com muitos momentos emocionantes, tensos, outros ainda aterrorizantes como o capítulo 9 sobre o manicômio - que me fez perder o fôlego - a descrição das cenas, os diálogos rápidos e o encadeamento de ações contribuem para aumentar a expectativa e a avidez. Há momentos bem divertidos em que gargalhei bastante e algumas cenas memoráveis, inesquecíveis mesmo. Somando-se a todos esses aspectos, as revelações e as reviravoltas mantêm-nos aprisionados no mundo e na mente do personagem que busca o seu lugar ao sol num mundo sombrio de maldições, indiferença e vícios.

       Ao contrário do que imaginei ao ler o título da obra, O Mal do Século não é sobre uma doença física que dizimou milhares de pessoas em dado momento da história do mundo; tampouco é sobre um feitiço lançado para amaldiçoar a vida de Vincent. Mas, para descobrir o que é o mal do século, você precisa ler! Só assim vai descobrir o que é e vai perceber que, como é apresentado no livro, persiste até hoje. 

Leitura de Um Perfeito Cavalheiro de Julia Quinn

 


Terminei a leitura do livro Um Perfeito Cavalheiro de Julia Quinn e... gostei com g minúsculo. Dos livros que li até agora, O Duque e Eu e O Visconde Que Me Amava, este terceiro certamente não é o melhor. E o problema, a meu ver, não reside especificamente no Bridgerton da vez, Benedict. São vários os problemas. 


O primeiro deles é que, nas obras anteriores e nas duas temporadas da série disponíveis na Netflix, Benedict é um personagem leve, alguém que possui suas questões internas, mas não se abate ou se deixa ofuscar. Ele tem desejos e aspirações genuínas e não parece se prender às convenções. Até porque, o fardo da posição social como visconde recai sobre seu irmão mais velho, Anthony, personagem central do segundo livro. O Benedict que imaginei se preocuparia um pouco com a questão da diferença de classes entre ele e Sophie, mas não permitiria que isso o impedisse de viver um grande amor. 

A propósito, Sophie vive sua jornada da obscuridade à evidência, da pobreza à riqueza, do ódio sofrido ao amor, nesta releitura do conto de Cinderela. Gostei da personagem porque ela sabe quem é e a qual mundo pertence. Apesar de apaixonada por Benedict, ela não tem grandes expectativas, principalmente depois de perceber que ele não se lembra de tê-la conhecido no baile organizado por sua mãe dois anos antes. 

Embora as passagens que descrevem os encontros amorosos dos dois sejam tão interessantes como nos livros anteriores, acho que o casal não tem muita química. Este é um casal que não funcionou muito bem, na minha humilde opinião. Talvez eu tenha essa impressão pelo fato da autora ter escolhido contar a história a partir do conto. Sei que se trata de uma releitura. 

Além disso, Benedict é um pretendente mais do que perfeito para qualquer jovem. No entanto, ele não é um príncipe encantado. Ele é um homem que cresceu rodeado de amor em uma família extensa que o ensinou a reconhecer os outros ao seu redor. O amor de sua família impediu que ele crescesse como um menino abastado mimado que olha para os outros como se estivessem debaixo das solas de suas botas. Não! Benedict é um ser humano. Essa preocupação do personagem, exagerada ao meu modo de ver, fez com que a narrativa não tivesse fôlego. 

O que quero dizer é que para mim não é muito crível a reação dos personagens. Acredito em Benedict quando ele intervém e ajuda Sophie resgatando-a de Phillip Cavender. Acredito em Sophie quando ela cuida de Benedict que adoece por causa da forte chuva. Mas não acredito quando ela se rende e permanece na casa dos Bridgerton. Não acredito em Benedict quando ele insiste em levá-la para casa de sua mãe depois de recusar ser sua amante. É uma situação bizarra. Ele a salvou de um estupro coletivo para sugerir uma relação extraconjugal e ela não só permaneceu trabalhando para a família dele como inclusive se entregou a ele?!? Acho que a autora errou a mão. 

Discutir sobre as questões internas desses dois personagens, suas motivações e suas escolhas foi totalmente anulado por colocar ambos em uma situação que contradiz os próprios personagens. Podem dizer, por exemplo 'Ah, mas o amor faz isso!'. Será?! Tenho minhas dúvidas. Enfim, talvez eu esteja enganada e tenha feito uma leitura errada dos personagens. Mas fiquei o tempo todo, enquanto lia, pensando que me perdi na floresta. Aquela mencionada no capítulo onze, quando Sophie espia Benedict nu banhando-se no lago. Fiquei ali, espiando os dois e depois me perdi. Não encontrei o caminho para o Meu Chalé e, tudo o que posso dizer é que, quando encontrei, Benedict já havia casado com Sophie, tinham juntos três filhos e aguardavam o quarto do casal, torcendo para ser uma menina dessa vez.


Lido em Janeiro/2024

O agreste em mim: uma leitura



                Este texto é o segundo que escrevo sobre o livro O Agreste Em Mim. O primeiro, já postado nas redes sociais, tem como objetivo despertar o desejo para a leitura. Por esse motivo, não me aprofundei com observações sobre os personagens, os cenários, o enredo, reminiscências de outras obras, estrutura e passagens importantes do texto. No entanto, farei neste tudo o que não fiz no anterior.

            Começando pela análise do primeiro capítulo, vemos uma estrutura formada por frases curtas, algumas com apenas um vocábulo. Essa construção reforça a ideia de dureza, a dificuldade de andar, de respirar. O texto exemplifica o momento pelo qual o personagem principal está passando. Ele retorna para sua terra natal, Pernambuco. Está cansado e ferido.

            O cenário é descrito como “verdejante”. De acordo com a autora, “A terra, com sinais de vida e os açudes cheios” contrastam com a “secura” no peito do protagonista, José: “uma alma alquebrada em meu corpo machucado.” O personagem sente duas dores distintas – uma física (ferimentos, pg 10; hematomas, pg 15) e outra emocional (distante, do passado, que não cicatrizou).

            José, um homem nordestino, homossexual, foi perseguido na juventude por seus irmãos Rubens e Levi. Precisou fugir porque tentaram matá-lo. Trabalhou como costureiro no Rio de Janeiro e ascendeu profissionalmente. Conseguiu dinheiro, alcançou fama e sucesso. Mas a notoriedade atraiu o mal do qual fugiu. Rubens, seu irmão mais velho, mandou seu afilhado Antônio ao Rio a fim de enganar e acabar com a vida de José. O protagonista então é iludido por Antônio, se apaixona por ele, sofre uma violência e uma grande desilusão. Traído e agredido, José é jurado de morte pela pessoa que amava, com quem dividia a vida. Esta é a trama principal. As subtramas da história contribuem para a trama principal e compõem o texto de maneira inteligente. As subtramas são necessárias e eficientes: a história dos demais personagens, o relacionamento entre eles, as mentiras, as intrigas, as revelações. Tudo apresentado de forma bem encadeada com sensibilidade e brilhantismo.

            Continuando a falar dos personagens, temos o núcleo de José: Dona Ciça, sua mãe; Ritinha, irmã; os irmãos Rubens e Levi; e o pai, o Velho; Ismael, marido de Ritinha; temos ainda os demais personagens: Antônio, filho de Fulô, puta, com Janjão, um matador; Dadinha, puta amiga de Fulô; Herminiano, capanga de Rubens; Dorina, puta amiga de José; Rosinda, professora e mulher de Levi; Paco, espanhol, primeiro amante de José.

            Os cenários onde o enredo se passa são basicamente dois: o principal é o agreste nordestino, em Pernambuco; o outro são as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A história se desenrola no sertão, portanto os lugares de maior relevância na trama são Fazenda Bonsucesso, Sítio de Ritinha, Casa da Alegria, Fazenda Serra Linda e mais.

            Analisando outros aspectos da obra, pude perceber ressonâncias da Bíblia Sagrada. Claramente, a autora se inspirou na história de um personagem homônimo que sofre com a violência de seus irmãos mais velhos, entre eles também Rubens e Levi. No texto bíblico, José foi agredido pelos irmãos, jogado em um poço e vendido aos egípcios que passavam pelo local. Além disso, verifiquei outra passagem inspirada na Bíblia. Refiro-me à Parábola da Semeadura no Novo Testamento: “Como semente jogada em pedras que no primeiro raio de sol murcha, seca. Sem tempo para crescer, só brota e já é ceifada. O tempo, esse ceifador de sentimentos. Tudo o tempo apaga, até o que nos é mais caro. O tempo quer é me ver seco. Seco como o estio no agreste. Sol. Poeira. Sede. Sede de vida, nisso somos iguais, eu e o agreste. Falta brotar a vida na gente. Quando virá para mim o tempo chuvoso? Talvez já tenha vindo com José e joguei fora.” Pg 22

            A autora fez uso de figuras de linguagem enriquecendo seu texto. Comparações, metáforas, antíteses e mais dão fluidez e ritmo, aproximando a obra em diversos momentos da linguagem poética pela abundância imagética. O uso de vocábulos como “estiagem” e “sede”, assim como a alusão à chuva como contraponto da ideia de secura fizeram-me recordar das cantigas de amigo do Trovadorismo na Idade Média onde a água é compreendida como elemento de vida, essencial, e meio para a plenitude sexual. As considerações sobre a morte e a fome são passagem belíssimas nas páginas 22 e 23, estabelecendo o estado de espírito de Totonho, ou Antônio. Pode parecer exagero, mas lembrei de Harry Potter com os usos das expressões “não-se-sabe-o-quê” e “não-se-sabe-para-quê”. O próprio protagonista se compara ao cenário. Na página 63 ele diz “Se eu entendesse o que aconteceu, encontraria um alento para minha alma. Quem sabe amainasse a secura em que me encontro, esse chão rachado e esturricado que eu virei.” Na mesma página, José fala sobre florescer e usa a expressão “me senti uma torrente d’água rompendo barreiras e inundando cidades.” Essa dicotomia está presente em toda a obra.

            No livro há uma história secundária da qual particularmente gostei muito: o mistério sobre a paternidade de Antônio. A princípio, pensei que ele fosse filho de Levi. Mas ao longo da narrativa encontramos pistas de que não é assim. Em seguida, pensei ter finalmente matado a charada: Rubens é o pai de Antônio. Mas não! Um maravilhoso plot twist nos revela que Antônio é filho de Janjão, matador com quem Fulô não quis se estabelecer. Todavia, como não poderia ficar na Casa da Alegria estando grávida sem alguém que bancasse suas despesas, Dadinha sugeriu que ela dissesse a Rubens que o filho era dele. E assim, sentindo-se de alguma forma responsável pela criança, Rubens obrigou seu irmão Levi a assumi-lo. Outro motivo que levou Rubens a aceitar essa artimanha foi o desejo de separar Levi de uma mulher com quem se envolvia para sua desaprovação. “Se não fosse a possibilidade desse frangote ser meu filho, eu arrancava essa cara de escárnio.” Pg 78. Rubens então acolheu Antônio como afilhado. Uma maneira “torta” de assumir a paternidade; como se tivesse algum tipo de código de conduta. É irônico esse tipo de conduta levando-se em consideração as tentativas de matar o próprio irmão. Nas páginas 79 e 80, Rubens diz a Antônio que é seu pai. Acrescenta que, por esse motivo, sempre cuidou dele e de sua mãe. Provoca dizendo que se fez Levi assumir a criança foi para que não continuasse o romance e “esquecia aquela professorinha desenxabida.” Mesmo Antônio vê a ironia nas ações de Rubens. Na página 81 ele diz “é outro a defender a moral e os bons costumes.”

            O personagem Rubens cumpre exemplarmente a função de antagonista. Vemos que ele sente satisfação em prejudicar os outros. Isso fica muito claro no capítulo “Casa de Rubens” a partir da página 77. Ele mandou matar José, obrigou Levi a assumir um filho que não era dele, separou o irmão da mulher com quem se envolvia, disse para Antônio que é seu pai para irritá-lo. Antônio dá vazão aos sentimentos pelo padrinho na página 82 quando diz a Rubens “O senhor me dá nojo, é o pior tipo de gente, capaz de manipular tudo e todos conforme lhe convenha.”

            Assim percebemos que durante a narrativa o perfil de Rubens vai sendo desenhado: preconceituoso, maldoso, manipulador, violento, ardiloso, perigoso. Uma pessoa que não tem respeito por nada, nem por ninguém. Alguém que parece não nutrir sentimentos ou, se os tem, são negativos e prejudiciais para todos em sua volta.

            A autora aborda no livro questões pungentes da sociedade atual – homossexualismo, violência contra LGBTQIAP+, identidade e aceitação são alguns exemplos. O momento que dá início ao fortalecimento da identidade do protagonista, essa afirmação pessoal – a aceitação - é quando José vai ao Santuário, onde anteriormente foi a casa de Paco (capítulo Casa do espanhol, pg 64). Lá ele se depara com a história de sua própria vida de uma maneira totalmente inesperada. É interessante como ouvir a história de sua vida como se fosse de uma outra pessoa o deixou em condição propícia à reflexão. Ele precisava observar os fatos objetivamente. Assim, a ida de José a este local proporcionou uma catarse que impulsionou seu recomeço.

É muito bonita a relação entre José e a mãe. Ao retornar para Pernambuco, José se recolhe na casa da mãe para se recuperar. Este é um lugar de aconchego e restauração, tanto que ele pensa novamente no trabalho como atestam adiante os trechos “voltei a trabalhar” e “a nova coleção” pg 84. A mãe sempre soube da homossexualidade do filho. E mais importante: ela sempre o amou independentemente de suas preferências. Ela acolhe José, cuida de suas feridas físicas, das feridas na alma e o ajuda a olhar-se. “Filho, esse espelho e nenhum outro é capaz de mostrar o que cada um é de verdade” pg 82. Esta é uma das citações mais importantes na minha opinião. Talvez porque grande parte do sofrimento pelo qual os homossexuais passam se deve ao fato de viver com a dificuldade de assumir-se e o medo de não serem aceitos, principalmente pela família. José entende que os irmãos e o pai preferiam ocultá-lo. E este é um sentimento que o persegue “E que até hoje tento esconder” pg 83. Quando José descobre o despertar sexual com Paco, ele sente que encontrou a única pessoa com quem não se sentia invisível. Vendo todo o sofrimento do filho, a mãe se arrepende por ter sido omissa e ela diz isso. “Fui displicente, permiti ser governada pela amargura. O silêncio e a amargura juntos nesta casa criando desatino, perseguição e pesar” pg 84.

             Essa força que José encontra para se reerguer parece não cruzar o caminho de outro personagem: seu pai. Acamado, à beira da morte, o pai de José se sente vazio, “nada me assaltou o peito” pg 87. Esse é um vazio que o personagem sente desde sempre. É muito triste esse pensamento. O personagem se sente um desperdício de espaço no mundo. É muito deprimente. Alguém sem perspectivas, sem sonhos ou desejos na vida. Alguém que simplesmente aceitou o que foi lhe acontecendo, que nunca escolheu nada. Ele deixou a vida passar, ou melhor, apenas deixou o tempo passar por sua vida: “Uma lacuna escoando os dias”, “Que Deus me perdoe, mas estou satisfeito”, “Fui um deserto de sentimentos, ambições e ações” (pg 87 e 88). É interessante que nem sequer o nome do personagem é mencionado. Sempre que a autora menciona o pai de José refere-se a ele apenas como o Velho. Este é um elemento que enfatiza as circunstâncias da vida, ou não-vida, deste personagem.

            A primeira parte do livro intitulada “Chegadas” cumpre bem a sua função introdutória, apresentando os personagens mais recorrentes na trama e o enredo principal.

            A segunda parte, “Encontros”, desenvolve a trama de maneira mais dinâmica e ritmada. O aumento da tensão em cada encontro relevante começa a nos preparar para a parte final. De todos os encontros nesta parte da narrativa, o mais importante, sobretudo, é o de José consigo mesmo. É ao se olhar no espelho e para seu passado que ele encontra sua essência e a força que vai motivar suas ações. José afirma “Estou descobrindo muita coisa para quem chegou aqui com vontade de morrer, desejando até me deparar com Rubens e acertar logo as contas” pg 85.

            Outro encontro igualmente importante e tenso é o de José com seu irmão. Rubens percebe uma mudança em José: “O tempo passou e o moleque que foi corrido daqui com o rabo entre as pernas, estava mais senhor de si, tinha firmeza na postura” pg 91. Ver o caçula da família tem um efeito sobre seus sentimentos aumentando sua ojeriza pelo irmão. Rubens sente e age como se tivesse o direito de zelar pela reputação da família. O trecho, “a verdade é que sempre estive sozinho nessa luta de manter limpo o nome Mourão” funciona como justificativa de suas atitudes questionáveis e até criminosas. Para Rubens, a orientação sexual de José é uma mancha, uma vergonha. Ele se sente pessoalmente atingido.

            Já o encontro de José com Levi é totalmente diferente. Podemos verificar em Levi uma predisposição para o diálogo com o irmão. Depois do casamento, sua esposa exerceu influência positiva em Levi, tanto que ele se afasta de Rubens e começa a questionar suas ações. O trecho que nos revela o pensamento de Levi sobre José diz o seguinte: “Não era o menino que habitava minhas recordações. Mesmo que fosse, agora eu não usava os olhos de meu irmão mais velho, enxergava-o com os meus, era o que valia” pg 94.

            Vários são os encontros. O terceiro que me chamou a atenção na obra foi o de Antônio com a mãe. Este encontro prenuncia a terceira e última parte do livro, pois funciona como um confronto no qual Antônio questiona a mãe sobre o fato de Rubens ser seu pai ou não. Ao descobrir a invencionice de sua mãe com Dadinha para enganar Rubens, Antônio achou engraçado seu padrinho ser “ludibriado por duas quengas”. Dadinha foi a responsável por esse plano.

            A terceira parte do livro intitulada “Confrontos” encerra a trama. É quando o clímax, preparado com o aumento da tensão na parte anterior, acontece. Pensar em confronto leva-nos a pensar em embate. Outros sinônimos para este vocábulo sugerem sempre algo negativo: conflito, disputa, atrito, briga, contenda. No entanto, nem todo confronto tem resultado nocivo. É nesta parte que se dá a reconciliação entre José e Levi. “Era bom fazer as pazes com José, aquela birra do passado não tinha jeito de continuar, não devia nem ter começado” pg 102. Levi explica ao irmão que agiu de maneira errada influenciado pelo mais velho e que sua mudança se deve a presença de sua esposa em sua vida. Levi justifica sua mudança: “Penso que na vida, a gente tem que mudar, procurar ver sempre as coisas por um outro ponto de vista, não se pode morrer do jeito que se nasceu, senão, para que a vida?”. Levi acrescenta que deseja a mudança de Rubens, para o bem dele. Mas isso não acontece.

            No capítulo “A caminho da Casa da Alegria” a partir da página 107, José é incentivado por sua mãe e Dadinha a fugir de Rubens novamente. Embora neste ponto da narrativa ele se sinta em condição de enfrentar o irmão mais velho e até a morte, José se deixa vencer momentaneamente por suas intercessoras e decide fugir, repetindo a mesma história de anos atrás.

            A narrativa mantém nosso interesse no desenlace da história ao aumentar a tensão para o último e principal confronto da trama. Mais uma tocaia é planejada por Rubens durante o cortejo do pai falecido. Dorina ouve o plano e conta para dona Ciça que, mais uma vez, impede o fratricídio. Outra fuga.

            O destino mostra toda sua força quando Antônio é designado por Dadinha e Fulô a ajudar José em sua fuga. José não sabia que Antônio era filho de Fulô. Quando o vê, José põe para fora toda a sua ira, sua frustração e tristeza pela maneira como foi tratado por Antônio. Grita e o agride com um soco sem que Antônio se defenda, pois sente que merece aquele tratamento por tudo o que fez. Em seguida, José desiste da fuga e resolve enfim se encontrar com Rubens e confrontá-lo finalmente para o bem ou para o mal.

            O ritmo na terceira parte é bem mais acelerado. O enredo prende nossa atenção e não conseguimos parar de ler até descobrir o desfecho. Na página 116, José percebe toda a sua força e enfim decide encarar o desafio de confrontar o irmão. É um momento muito importante para o personagem pela certeza de sua decisão. José resolve ir ao irmão e acabar de vez com aquela “pendenga” – a sonoridade dessa palavra é maravilhosa!

            O embate entre os irmãos acontece a partir do capítulo “Igreja da Matriz”. José fala tudo o que estava engasgado na garganta há vinte anos. Como ambos estão armados, há um disparo e depois outro. A descrição da cena faz lembrar dos antigos filmes de faroeste, pelo canário onde se passa e pelo fato dos irmãos se encararem, como se fosse um duelo. Ambos são feridos. No entanto, José não resiste e morre. Sem José, tudo se desfaz: “A família se desmanchava como terra esfarelenta”. Pg 122.

            Como José é um personagem muito fácil para nos identificar, torcemos a seu favor até seu último suspiro. Apesar de sua morte, sua liberdade fala mais alto. A liberdade de José grita, ecoa na existência dos demais personagens. Talvez Rubens e os outros personagens não entendessem a importância de José para suas vidas, a diferença que fazia em sua volta, as marcas deixadas, seu legado. Mas José entendia seu lugar no mundo e o afirma em sua última fala “Eu ainda viverei de muitas maneiras em sua vida, Rubens. Minha morte não será meu esquecimento. Você não poderá fazer nada!”. Pg 120. Apesar de lamentarmos sua morte, compreendemos que é um elemento essencial para a narrativa construída. Aqui a liberdade venceu a morte.

            A imagem final do mandacaru com seus espinhos e flor sintetizam com sensibilidade esta obra marcante, mostrando que ambos fazem parte um do outro. Eles se complementam. São como o direito e o avesso. José e Rubens são faces diferentes de uma mesma moeda. Não existe um sem o outro.

            A obra estruturada sobre essa base dicotômica é construída com uma riqueza imagética e com uma linguagem poética ao longo da narrativa que ressoa em nossa alma. Ao fecharmos o livro, ficamos com nossas reflexões e sentimentos, principalmente o de agradecimento pela oportunidade de ler uma obra simples e ao mesmo tempo tão tocante. Isso é maravilhoso! Esse luto literário. Guardar o tempo de luto para enfim desapegar e iniciar outro livro. É sensacional quando fechamos o livro e o livro permanece no nosso imaginário. O Agreste Em Mim tem esse efeito. Permanece. 

 

O Agreste Em Mim: sensível e necessário


Durante o mês de novembro, escolhi ler o livro de uma amiga muito querida. Alguém que admiro muito. O Agreste Em Mim de Rô Arruda provou ser da capa à contracapa um livro sensível, tocante e extremamente necessário, Realmente importante para qualquer pessoa que deseja estar antenada com os temas atuais e, principalmente ser mais HUMANO. 

Com 123 páginas, o livro é formado por três partes centrais Chegadas, Encontros e Confrontos, divididos em capítulos curtos. A linguagem é fácil, com destaque para os vocábulos regionais que enriquecem a obra trazendo a sonoridade característica do nordeste brasileiro. Sem falar da capa! De muito bom gosto, apresenta a imagem do solo árido, seco, rachado do agreste. Aqui o título já sugere que essa sequidão não faz parte apenas do cenário, mas do estado de espírito dos personagens da história. Destacado com uma cor mais clara há uma silhueta masculina sinalizando que um crime acontece; um homicídio. Não sei se o papel é reciclado, mas gostei muito da escolha para a edição. É agradável para a leitura e combina muito bem com a capa. 

A narrativa em primeira pessoa é inovadora para mim ao permitir as vozes de todos os personagens principais do enredo. Cada ponto de vista cria uma estrutura que contrasta com o lugar e com o título: as vozes funcionam como rios se encontrando, confluindo todos para uma mesma direção, para contar uma única história.

Na trama central temos José, nordestino, nascido em Pernambuco, precisou sair de sua terra natal para o Rio de Janeiro para fugir da perseguição de seu irmão mais velho. Rubens jurou matar José ao descobrir sua homossexualidade. Ajudado por sua mãe, irmã e por uma amiga, José foge e vai trabalhar como costureiro no Rio de Janeiro. Reconhecido por seu trabalho, fica famoso e passa a ser conhecido como Jô Salgado ao ter suas produções em destaque nos grandes desfiles de moda. Mas José vai do céu ao inferno ao passar por uma grande decepção em sua vida. Uma traição de quem não esperava; pior, de quem amava. Decide então voltar para sua terra para se recuperar das feridas físicas e emocionais. Neste retorno às origens, José se reencontra com a família, com o passado e consigo mesmo. 

Não quero estragar a leitura, por isso estou fazendo um esforço muito grande aqui para não falar mais da trama. O que posso falar é que no livro, Rô Arruda traz temas como homossexualidade, preconceito, violência contra as pessoas LGBTQIA+, conflitos familiares, descobertas, aceitação e amor próprio. Além disso, a história conta ainda com intrigas, revelações e reviravoltas que vão manter seus olhos bem fixos nas páginas até o final. Super recomendo sua leitura!

"Quando a vida resolve cobrar nosso destino, a gente se perde e se encontra" (página 21).

O mistério da sala interditada



Parecia mais um final de tarde tranquilo. Todos os dias, no mesmo horário, ela passeava pelas salas e pelos corredores em busca do que fora deixado para trás pela turba de alunos barulhentos. Papéis de bala, copos de Guaravita, pacotes de biscoitos vazios sempre lhe rendiam alguma energia. Porém, algo estava diferente. Ela não estava sozinha.

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Tudo o que ela coletara de uma das salas era o suficiente para todo o seu grupo, pensou. E ali estava ela. Aproveitando de toda a doçura que os estudantes não queriam mais. Ao sair de uma sala, percebeu uma movimentação atrás de si, no banheiro. Alguém ignorara as ordens e ficara para trás no andar. O que fazia esse alguém ali? Naquele momento? Ela pensou que, o melhor, seria sumir o mais rápido possível. Não ficaria para descobrir. Contudo, quando se preparava para partir, sentiu-se congelar. Estava sendo cuidadosamente observada. O alguém do banheiro já a avistara e partiu em sua direção. E agora? O que ela deveria fazer?

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Extremamente assustada, ela correu e esqueceu-se da sala em que estava. Avançou pelo corredor, pensando em como poderia escapar desse alguém mal-intencionado. Entrou na próxima sala e pensou tê-lo despistado. Mas não. Quando olhou para cima, eis que estava prestes a esmagá-la aquele que seria o último que ela veria. 

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No dia seguinte, flashes, fotos, uma sala fechada... interditada. Cena de um crime. Palco do último suspiro dela, que antes passeava feliz pelos ambientes da escola. Quem teria sido o cruel a tirar a vida de um ser tão inofensivo quanto... aquela barata! As investigações continuam, mas nenhum suspeito ainda foi identificado. As autoridades têm esperança de encontrar alguma pista no sistema de câmeras e monitoramento instalado pela escola. Será que um dia descobriremos quem cometeu esse baraticídio? Contamos com a colaboração de todos que puderem dar qualquer informação para elucidar este caso.

Produzida e apresentada em 04/09/15 para a turma 1703 da Escola Municipal Cardeal Leme 




Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 5 de dezembro de 2017.

Uma fábula - A Raposa e A Ursa




Num dia cinza de outono, uma raposa passeava por bosques nunca antes visitados, em busca de algum animalzinho desavisado que caísse em suas garras. Com a aproximação do inverno e a ausência de comida, a raposa precisava encontrar um abrigo o mais rapidamente possível. Errante, a raposa encontrou uma caverna que já era habitada por uma ursa. Esta aguardava a chegada de seus filhotinhos e estava cansada, porém animada. A raposa se aproximou da entrada da caverna e gritou:

- Oláaaaaa! Tem alguém aí??
- Sim, quem deseja? - respondeu a ursa.
- Sou uma desafortunada raposa que precisa de um lugar para ficar e alguma comida para saciar sua fome.

A ursa, um tanto desconfiada, então perguntou:

- Como conseguiu encontrar este lugar?
- Na verdade, cheguei aqui por acaso. Vinha pelos bosques procurando água e comida e acabei vendo esta caverna. Pensei em ficar por um tempo para descansar. Você pode me ajudar?

Cheia de incertezas, a ursa resolveu ajudar. Que mal uma raposa solitária poderia lhe fazer?

- Sim, você pode ficar. Darei um pouco dos meus alimentos e você pode descansar. Sabe de uma coisa! Você também pode me ajudar! Durante o inverno eu durmo bastante, logo vou hibernar. Meus bebês estão para nascer e você pode nos vigiar. Assim nenhum predador poderá nos atacar.

A raposa satisfeita aceitou a proposta. Comeu, bebeu, conversou, riu e dormiu. Acordou e repetiu tudo de novo. Aquela ursa sabia bem como tratar um hóspede! Mas a ursa dormiu. A comida acabou. A conversa cessou. Os filhotes nasceram e toda a atenção da ursa era para eles. Durante uma das longas sonecas da ursa, a raposa, não aguentando mais, pegou um dos filhotes da ursa e o comeu. Ao acordar, enquanto a ursa preocupada procurava seu filhote, a raposa fingia dormir, ressonando muito alto. 

- Acorde! Acorde, por favor!! Um dos bebês sumiu!
- Como isso é possível?? - disse a raposa. 
- Não sei! Acordei e ele não estava lá! Não sei o que fazer!
- Tenho uma ideia. Talvez ele tenha saído da caverna. Por que você não sai para procurar? Eu fico aqui e o outro bebê posso vigiar.
- Sim, claro. Obrigada! - disse a ursa e saiu aflita.

A raposa pegou um pequeno galho e fez marcas no chão simulando pequenos passos em direção à entrada da caverna. Em seguida, pegou o outro filhote e o devorou. Muito esperta, escondeu-se atrás de uma rocha e adormeceu. Quando retornou, a ursa toda chorosa percebeu a ausência de seu outro bebê e deu um urro tão alto que acordou a raposa.

- O que foi, dona ursa? Não conseguiu encontrar o seu bebê?
- Não! E o outro também sumiu! Não sei mais o que fazer!
- Não se preocupe tanto... se eles saíram devem retornar. 

E enquanto saía detrás da rocha, a ursa percebeu um pedaço da roupinha de seu bebê preso nos pelos da raposa. A ursa se aproximou ameaçadora e disse a raposa:

- Sinto o cheiro de meus bebês. Eles estão aqui. Ah! Encontrei! - e pegou o pedaço do tecido. 

A assustada raposa começou a se afastar.

- Eu não fiz nada! Eu não fiz nada! 
- Eu tentei lhe ajudar e é assim que você me paga?!? 
- Desculpe-me, por favor! Deixe-me explicar!
- Sim, claro, deixarei. Mas antes preciso de forças. Devo me alimentar.

Então a ursa prendeu a raposa com suas fortes garras e estraçalhou-a num piscar de olhos. 
O abuso da raposa só gerou sofrimento. Os bebês foram devorados, também a raposa, assim como a confiança da ursa que seguiu seu caminho comendo qualquer raposa que encontrava.


Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 29 de novembro de 2017.

Conto infantil contemporâneo




A mãe de Joãozinho deu-lhe uma nota de 5 reais e pediu que ele fosse à padaria comprar 8 pães. A mãe avisou ao filho que o troco seria de 3 reais. Acrescentou que Joãozinho não gastasse o troco comprando coisa alguma.

E Joãozinho foi. Ia pela calçada, prestando muita atenção a todos a sua volta. Era a primeira vez que sua mãe lhe confiava tal tarefa; ele não podia errar. Ele não queria errar!

Atravessou a rua na faixa, como sua mãe lhe ensinara. Cumprimentou o dono da venda da esquina e seguiu por mais alguns metros. Quando chegou à padaria, Joãozinho pediu ao atendente 8 pães. Enquanto executava sua tarefa, o atendente conversava com um cliente que tomava café. Ambos estavam em uma conversa animada sobre uma reportagem que passava na TV naquele instante. Um homem conseguiu entrar armado em um banco, fez alguns reféns trancando-os numa sala, esvaziou os caixas e ainda teve acesso aos cofres esvaziando alguns. Os homens estavam perplexos porque o assaltante fizera tudo sozinho, aparentemente sem ajuda de ninguém, e ainda saiu com uma alta quantia escapando da polícia. 

Joãozinho olhou para a TV e tentou escutar algo, mas era impossível dado ao volume da conversa. Viu apenas a imagem do chefe da polícia dando uma entrevista enquanto letrinhas muito pequenas corriam debaixo dele.

O atendente entregou o pacote a Joãozinho que aguardou o troco. Sem prestar muita atenção, o atendente pegou uma nota de 5 reais, uma de 2 e uma moeda de 1 real. Entregou ao menino que recebeu e guardou no bolso como sua mãe mandou.

Ao chegar em casa, Joãozinho entregou à sua mãe o pacote com os pães, enfiou a mão no bolso, retirou o dinheiro e estendeu à sua mãe. Quando a mulher contou o dinheiro, exclamou: "Nossa! O troco está errado! Tem 5 reais a mais!" Ao que Joãozinho, preocupado, perguntou: "A culpa é minha, mamãe?" Não, meu filho. Não foi você que errou - respondeu a mãe. E o menino, ainda preocupado, mais uma vez, perguntou: "Quer que eu vá à padaria de novo, mamãe?" E a mãe respondeu: "Não, meu filho. Não tem problema. É um valor pequeno. Você não roubou um banco!" E conclui com uma risada. 

Moral da história imoral: você não é um ladrão se rouba só um pouco.



Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 22 de novembro de 2017.

República para quem?



Ao fazer uma busca simples na Internet pelo significado da palavra República, surgiu rapidamente o resultado abaixo:

1.forma de governo em que o Estado se constitui de modo a atender o interesse geral dos cidadãos.

2.jur forma de governo na qual o povo é soberano, governando o Estado por meio de representantes investidos nas suas funções em poderes distintos.

Na teoria, é uma forma de governo que atende aos cidadãos tendo em vista que são estes que escolhem seus representantes, aqueles que intercedem pelos interesses de seus eleitores. Na prática, não funciona muito bem... Não é de hoje que aqueles que alcançam tal posição querem apenas trabalhar em causa própria, enriquecendo lícita ou ilicitamente, projetando-se para posições e cargos mais elevados em busca cada vez mais de status, poder e dinheiro. Em parte a culpa é do próprio cidadão que ou não se interessa pelo que seu candidato fez, faz ou fará, de modo que não o acompanha, ou vende seu voto por migalhas, mesquinharia que garante algum benefício pessoal, nunca o coletivo. 

No entanto, parte da culpa encontra-se naquele que decide em causa própria. Aquele que foi eleito pelo voto popular tem a responsabilidade de o representar bem e, quando decide não o fazer, deve ser investigado e punido se for julgado e considerado culpado. Mas no país do Carnaval, não existem culpados... apenas bons servidores do povo injustamente difamados...

Esta devia ser a forma de governo que garante a voz e a participação populares. Temos, sim, liberdade de expressão, mas há muito o povo tem gritado, clamado, lutado e não tem sido ouvido. Por mais manifestações que se faça, os interesses dos opressores estão sobre a mesa, e são estes que são sempre considerados.

Ouvi, com tristeza e lágrimas nos olhos, a notícia de um professor que, sem condições de sustentar a própria família, decidiu pedir esmolas no sinal de trânsito. Este profissional que tanto estudou e batalhou por sonhos seus e de outros, vê hoje sua situação financeira se deteriorar com uma dívida de quase 20 mil reais, por não receber o que lhe cabe por direito; seu salário. Das esmolas que recebe, retira o dinheiro da passagem para ir trabalhar, por acreditar no que faz, por amor à educação, para não abandonar as crianças. A pergunta que faço é: quem está governando em prol dos interesses desse professor? Ou dos meus interesses? Ou dos seus? Estamos abandonados, jogados à própria sorte. Não vivemos em uma República. Vivemos a ditadura dos opressores, dos corruptos. Vivemos a ditadura do medo. Aliás, não vivemos; apenas sobrevivemos. Enquanto eles têm em dia seus vencimentos e benefícios, o pouco que temos tem sido retirado. Somos nós os que ficamos sem dinheiro, sem trabalho, sem liberdade. Trancados em nossas casas, em nossas vidas enquanto eles riem de nós. 

Atualmente, o voto é uma armadilha além de um direito. Somos obrigados a escolher entre o seis e a meia dúzia. Nenhum deles está de fato interessado em governar para o povo. Cada um deles tem sua expectativa e, com os anos, vemos que o avanço é pessoal. Eles se fortalecem contra nós cada vez mais, enquanto vamos ficando acuados, brigando uns com os outros por ideologias que não tem levado o povo a lugar nenhum. É um projeto político muito simples: alcançamos o poder, emburrecemos o povo, retiramos tudo e permanecemos eternamente no poder. 

Neste feriado, dia em que deveríamos comemorar a Proclamação da República, não há nada a comemorar. O povo perdeu investimentos em educação, em saúde e diversas áreas; o povo vê escândalos de corrupção nos jornais o tempo todo. Esquemas são descobertos e aconteciam há muitos anos, décadas. E estamos em casa. É mais um feriado, que bom! Para alguns o dia de tomar umas cervejas com os amigos; para outros o dia do futebol. Há ainda os que vão à praia, ao shopping, ao cinema... Cada um faz o que gosta. Cada um vai para um lado. A nação permanece onde está, parada. Ou pior, vai regredindo. Fazendo-nos voltar para épocas que não gostaríamos sequer de recordar. 

É por isso que, mesmo sendo evangélica, prefiro os chamados feriados santos; pois somente na fé podemos encontrar os que advogam por nossa causa. Por aqui, o que vemos é ambição desmedida, falta de escrúpulos e vergonha na cara daqueles que com falinha mansa enganam muitos cidadãos.

Até a próxima semana!



Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 15 de novembro de 2017.

Estratégias




Olá, amigo! Tudo bem? 

Com o que você tem sonhado? E o mais importante: você tem feito alguma coisa para transformar seu sonho em realidade? O tema de hoje fala exatamente do "como fazer" - ESTRATÉGIAS.

Todo mundo tem sonhos. Uns sonham com a casa própria, outros sonham com casamento. Há aqueles que sonham em viajar para aquele país maravilhoso, ou ainda comprar o carro desejado. Muitos sonham com aquele Emprego com e maiúsculo e há ainda os que sonham em ganhar na loteria. Seja com ter algo, conquistar algo, ser alguém ou conquistar alguém, quase a totalidade da população do planeta tem sonhos, todo dia, o tempo todo. No entanto, o que separa os sonhadores dos realizadores são as estratégias. 

Além de sonhar, é muito importante definir as estratégias que devemos usar para alcançar nosso sonho. Até porque dependendo da estratégia utilizada podemos abreviar ou retardar a realização. 

Lembro de uma época em que estava desempregada e meu objetivo era ganhar algum dinheiro; qualquer quantia seria bem vinda. Decidi rascunhar no papel como poderia alcançar esse objetivo. Listei todos os lugares onde eu poderia colocar currículo. Não apenas isso. Fiz uma lista com os planos A, B, C, D e E. E poderia continuar por todo alfabeto, mas num desses planos consegui meu objetivo inicial: resolvi dar aulas particulares. Passei um bom tempo fazendo isso e foi uma experiência gratificante. Se o objetivo era não ficar dura, a missão foi concluída com sucesso.

Há pessoas que menosprezam as atividades das pessoas, chegando a criticar por não saber tratar-se de uma estratégia. É claro que cada pessoa tem sua prioridade. Houve um tempo que só o que eu queria era ficar com a saúde em dia. Mas muitos criticavam minhas escolhas em relação à minha vida social, acadêmica e profissional. Apenas não sabiam. E não era para saber mesmo. Não somos obrigados a contar tudo para todo mundo.

O fato é que devemos nos mover. Seja lá com o que estivermos sonhando, NÃO VAI CAIR DO CÉU !!! Muitas vezes exageramos em agir como o povo de Israel no Egito que recebeu o maná do céu para se alimentar no deserto. Imagina se acontecesse o mesmo conosco?!? Seria um tal de cai carro, moto, roupa de marca, homem e mulher caindo do céu na cabeça de todo mundo! E o pior: não faríamos nada para alcançar nossos sonhos. Seríamos mimados, filhinhos de papai que não dão valor ao que têm nem ao que são. 

O filme Rainha de Katwe traz a bonita e verídica história de Phiona, uma garota de Uganda que aprende a jogar xadrez e participa de competições representando o país. Em busca do sonho de uma vida melhor, a menina aprende a jogar xadrez, a ler, a competir, a viver. É um filme emocionante que mostra como é possível alcançar os objetivos pessoais através dos estudos, da inteligência, do esforço, do treino, do trabalho. Ao executar as estratégias do jogo, Phiona definiu sua estratégia de vida e viu seus sonhos se tornarem realidade.

Enfim, já dizia o samba "sonhar não custa nada". E é verdade. Mas realizar os sonhos custa tempo, dedicação, em alguns casos dinheiro, custa movimento. Esse é o momento de avaliar se as estratégias que você tem usado são boas ou não. O ano está terminando e você pode redefinir as estratégias a serem adotadas no ano que se aproxima. Rever tudo o que dissemos que faríamos, avaliar se saiu do papel e começar a projetar para o futuro fazem parte desse período de fechamento de ciclo. 

Se foi bom, se foi ruim, o importante é que algumas coisas concluí (parece até paródia da música do Roberto Carlos hahaha).

Obrigada a você que leu até aqui! Até a próxima semana!



Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 7 de novembro de 2017.

Reformando-se




Olá! Como vai você? 

Espero que esteja bem. E se não estiver??? O texto de hoje trata disso: reformar-se.

Nosso corpo e nossa mente precisam passar por reformas com alguma periodicidade. Eles são como uma casa. Com o passar do tempo o reboco cai, a parte elétrica apresenta problemas, canos estouram, rachaduras aparecem... A casa sofre com vendavais, grandes períodos de estiagem, vento... Nosso corpo também é assim. Precisamos cuidar do corpo indo ao médico ao menos uma vez ao ano, fazendo dieta, mantendo uma boa alimentação, fazendo exercícios físicos. Todos esses cuidados visam identificar problemas e solucioná-los ou simplesmente manter nosso corpo funcionando bem. 

Ameaças externas também afetam nosso corpo. Má alimentação, sedentarismo, estresse, automedicação, doenças não tratadas... Tudo isso baixa nossa imunidade. Mas quero falar brevemente sobre um outro tipo de reforma... a reforma da mente.

Muitas vezes agimos como donos da verdade. O outro sempre está errado. Nós pensamos que temos razão. É difícil ouvir o outro. Mais difícil ainda considerar o que o outro diz, quando pelo menos escutamos o que ele/ela está a dizer. Achamos que somos o centro do universo, perfeitos, mas não somos. Felizmente, além de imperfeitos, somos mutáveis. Temos a capacidade de analisar, avaliar, rever opiniões e conceitos. Temos a possibilidade da mudança. 

Assim como uma pessoa obesa pode passar por uma mudança alcançando o seu objetivo do peso ideal, com esforço, dedicação, acompanhamento e reeducação, nossa mente pode também mudar após o exercício de ouvir o outro, de compreender o outro, de analisar-se, de entender o próprio tempo. Quero dizer que os erros não são acidentes do percurso como muitos pensam. Os erros são oportunidades de crescimento, desenvolvimento, evolução, iluminação. Chame do que quiser. Reconhecer é parte importante do processo que já se iniciou dentro de nós. A outra parte, igualmente importante, é o desculpar-se, desculpar o outro e/ou aceitar o pedido de desculpas do outro. Esse movimento mostra a todos não somente a grandeza do coração, mas a vontade de construir pontes, manter elos. Todos crescem. Não é à toa que um texto surge melhor depois de uma revisão. 

Também precisamos nos avaliar, fazer uma revisão de nós mesmos, reescrever-nos de maneira diferente e melhor do que antes. E devemos fazer isso em qualquer área de nossas vidas. Enquanto há vida deve haver esperança.  Olhar para nós mesmos, fazer manutenção, promover reformas internas pode fazer com que vivamos mais com maior qualidade de vida. 

Até a próxima semana!

Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 24 de outubro de 2017.

Saramago, Pessoa, Reis



Olá, amigo!!

Terminei ontem a leitura do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago. Falar que é uma grande obra de um grande autor é muito pouco. Excepcional! Para que não está acostumado, o livro causa um estranhamento pela sua forma peculiar - economia no uso da pontuação. De maneira genial, Saramago conduz-nos em seu ritmo, fazendo-nos avançar e voltar para compreender e para saborear cada página de seu romance. Para os amantes de boa literatura é um banquete! Dar um destino a Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, não só é interessante como brilhante, na medida em que Criador e criatura se encontram nesta jornada de múltiplos que são diferentes mas iguais. No enredo, o retorno de Ricardo Reis a Portugal depois de viver por anos no Rio de Janeiro, seu envolvimento com Lídia, nome de uma de suas musas nos poemas - não a mesma - seu interesse por Marcenda e seu membro inanimado... os passeios de Reis por Lisboa, seus devaneios, suas conversas com Pessoa que é morto mas de alguma forma ainda vive, tudo é incrivelmente encantador. Não é um livro para ler com pressa. É um livro para ler, refletir, contemplar o belo. 

A divisão de classes na sociedade, a situação política de Portugal, Espanha e de toda a Europa, fios cuidadosamente trançados a trama. Saramago nos leva à discussões metafísicas e existencialistas sobre o ser e o não-ser, sobre o estar e o não-estar. Temas como solidão e morte ganham um sentido para além da tristeza e da decepção. É um mar de outros que habitam um único ser. Ambas, então, não existem! Enquanto houver quem se lembre... a importância da memória, individual e coletiva.

Em alguns momentos, visualizei tão claramente as cenas que cheguei a pensar em uma adaptação desta obra para o teatro, cinema ou mesmo para TV. Descobri que em julho do ano passado houve uma adaptação teatral pela Barraca. Percebi como sou ignorante em se tratando da história de Portugal. E não só isso, dos povos que originariamente colonizaram nosso Brasil; africanos, imigrantes e indígenas. Todos eles contribuíram para nossa cultura. 

Não vou aqui contar o que li. Meu objetivo é compartilhar minhas impressões, meu deleite. 

Muitos trechos chamaram minha atenção. Um deles foi uma fala da personagem Lídia:

"O senhor doutor é uma pessoa instruída, eu sou quase uma analfabeta, mas uma coisa eu aprendi, é que as verdades são muitas e estão umas contra as outras, enquanto não lutarem não se saberá onde está a mentira." 

As verdades como Pessoa ou Reis ou Caeiro ou Campos ou eu ou você são muitas. Somos todos analfabetos. Todos lutamos todos os dias como se luta nas guerras para não sermos uma mentira, para afirmar a verdade que dizemos, fazemos, somos.

Podia ter escolhido muitos outros trechos para citar. No entanto fico com este que traz complexidade na simplicidade, na medida certa.

Comece a ler um livro!

Até a próxima semana! 


Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 16 de outubro de 2017.

Fim de semana e a Lei de Murphy






Olá!

Já é tarde, eu sei. Mas tentarei ser breve. Sempre ouvi falar na Lei de Murphy sem notar realmente seus efeitos na minha vida ou na dos outros. Até o último sábado. 

“Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.”

Comemoramos em família o aniversário do meu irmão. Havíamos planejado tudo. Eu iria ao mercado na sexta-feira, compraria os ingredientes e faria os doces neste mesmo dia. O bolo seria feito no sábado, assim como os demais “comes” (pastel, cachorro-quente), exceto os salgados que seriam encomendados. 

Tudo estava indo bem. Preparei os doces e guardei-os na geladeira. No sábado pela manhã, preparei os pastéis sem notar algo. Ao tomar um copo com água minha tia notou que estava quente. Ela sinalizou e não demos importância (como geralmente acontece com tudo o que ela fala).

Na hora do almoço, meu pai foi se servir de suco quando observou que o mesmo também estava quente. Fui verificar se a geladeira estava desligada (isso já aconteceu muitas vezes) quando, para minha surpresa, percebi que ela não estava funcionando. Como fazer uma comemoração de aniversário sem geladeira?

Liguei para o técnico que chegou prontamente. Disse que o problema era na placa e que sairia para tentar adquiri-la. Não sabia se conseguiria porque as lojas fechavam as 3 da tarde, e já eram duas e meia. Ele saiu rapidamente de moto, esteve em três bairros diferentes: lojas fechadas. Apenas uma loja estava aberta, mas não tinha placa que precisávamos. O conserto ficaria para segunda-feira de manhã. 

Otimista que sou, não deixei a peteca cair. Tentei tranquilizar minha mãe dizendo que tudo ficaria bem e pedindo que me ajudasse com os demais preparativos. Manter-se ocupado é muito bom para se distrair dos problemas. 

Como três semanas antes eu havia machucado o dedo, passando por uma pequena cirurgia há dois dias, não podia bater a massa do bolo. Sem problemas. Eu poderia usar a batedeira. Não sei bem como aconteceu. Se foi o fermento o que houve com o gás. Sim... Enquanto o bolo estava no forno, o gás acabou e o botijão precisou ser trocado... Resultado: o bolo solou.

A maré de acontecimentos ruins não parou aí no sábado. Na segunda de manhã, enquanto o técnico consertava a geladeira, a pia começou a apresentar um vazamento que causou dores de cabeça à minha mãe e lambanças na cozinha e sala.

Para completar, ao chegar ao trabalho na manhã de segunda, soube pelo pessoal do trabalho que o final de semana deles também não havia sido muito fácil... É como dizem por aí: “Desgraça pouca é bobagem”!

Outras variações ou abreviações da Lei de Murphy são: “Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará”; e Se algo pode dar errado, dará." É como naquele filme, Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso: o universo conspira contra Alexandre que, incompreendido pela família, deseja a seus familiares um dia similar para entenderem seu sofrimento. Não estou aqui a desejar que você tenha um dia como o de Alexandre e sua família. Digo para você observar. Esse dia, algum dia, acontecerá. Não é praga que estou rogando. Acontece com todos. Quando acontecer, lembre-se apenas de identificar e tentar passar por esse dia ileso. Não se preocupe. Esse dia acabará quando o outro começar. Mas fique ligado. A Lei de Murphy está à espreita e, a qualquer instante, você pode ser vítima dela novamente.


Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 10 de outubro de 2017.

Ouvir é preciso





Olá, você que tropeçou e caiu aqui neste texto!

Quero falar hoje de algo que durante muito tempo foi minha especialidade: ouvir. Digo que foi porque atualmente acho que falo mais do que ouço. Não é que não queira ouvir, é que meu trabalho obriga-me a falar. E tive que aprender. Aprendi a falar, a me expressar, a me comunicar. Aprendi muitas coisas, mas evidencio estas porque, durante muito tempo em minha vida foi uma dificuldade. Falar em público então... era um pesadelo! Não hoje, felizmente.

Mas chega de falar, falar e falar! Ouvir é muito importante. Ouvir não é somente escutar. Ouvir é dar atenção, é considerar o que o outro está dizendo. Podemos aprender muito apenas ouvindo. Ouvir é uma das ferramentas de aprendizagem dos cegos. Ouvindo é como analfabetos aprendem sobre diferentes assuntos. Podemos evitar problemas ao ouvir alguém. E também é verdade que podemos ir de encontro aos problemas por ouvir terceiros... Podemos nos tornar pessoas melhores ouvindo conselhos e sugestões, ao invés de encarar como um jeito de os outros se intrometerem em nossa vida. Podemos crescer no trabalho, na vida acadêmica, na vizinhança, na família apenas por ouvir alguém. 

Nesta semana, duas situações fizeram com que eu pensasse sobre isso. Alguém separou do seu tempo para falar comigo, passar seu conhecimento, orientar-me com sua experiência. Em dado momento, esse alguém se preocupou por talvez eu levar a mal aquela intromissão. De maneira alguma! Acho louvável além de bonito quando alguém reparte do que tem com os outros. Há pessoas que após alcançarem suas conquistas pensam assim: “Ah! Por que eu deveria ajudá-la a conseguir alguma coisa se eu tive que trilhar meu caminho sozinho?” Há pessoas que, embora fiquem satisfeitas (talvez...) com o sucesso alheio, preferem não fazer nada para colaborar. Para que facilitar a vida do coleguinha, né?! Não esse alguém. Ficamos conversando uns vinte minutos ou mais sobre como eu poderia alcançar meus objetivos usando as estratégias adequadas. Sou muito grata. São poucas as pessoas que dividem o seu tempo e conhecimento para ver o desenvolvimento de outro. 

Outra situação que me deixou pensativa foi uma ocorrência na escola em que trabalho. Prefiro aqui não dar detalhes, até porque não se trata só de mim, mas de outras pessoas também. O fato é que não saber ouvir pode nos causar problemas. Isso quando somos nós a ouvir. Quando somos os falantes que não são ouvidos, a situação é desesperadora. Você sabe o que vai acontecer. Não que tenha visto numa bola de cristal... A experiência diz, você fala, por dentro você está gritando, mas o outro não ouve. E depois, por não saber ouvir, o outro precisa saber como conviver com as consequências. E nós devemos aprender a não nos culpar. Até porque foi o outro que errou. O difícil é ver esse outro caminhar sorridente em direção ao precipício enquanto estamos gritando com todas as nossas forças para ele não ir.

Fico pensando quais motivos uma pessoa pode ter para não ouvir. Talvez tenha um conhecimento que excede o da maioria. Ou ainda não tem paciência para isso. Falta-lhe tempo. Quem sabe não tem humildade, simplicidade... Ouvir é algo que pode ser ensinado, aprendido e exercitado. Penso que se as pessoas se ouvissem mais evitariam muitos desentendimentos, desencontros, fracassos.  “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Marcos 4:23 

Até a próxima semana!


Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 3 de outubro de 2017.

Meu projeto de leitura 2017



Olá, amigos! 

(Se é que, nessa altura do campeonato, alguém ainda me lê...)

Hoje falarei brevemente sobre meu projeto de leitura deste ano, os motivos que me levaram a criá-lo e tudo de bom que aconteceu e tem acontecido desde que comecei.

Antes de mais nada quero dizer que, mesmo antes de inventar de fazer faculdade de Literaturas, já amava ler desde a infância. Na escola municipal onde fiz o antigo primário, os alunos podiam pegar livros emprestados sempre que quisessem. Sempre aproveitei e, na época, meus favoritos eram os quadrinhos. Passei destes às novelas, revistas que traziam imagens em quadros preto e branco de artistas com balões de diálogo, como nos quadrinhos. Em seguida passei aos romances de bancas de jornais na adolescência, em sua maioria emprestados por uma vizinha que me incentivou a lê-los. 

No ensino médio, comecei a ler os clássicos da literatura. O primeiro deles foi Memórias Póstumas de Brás Cubas. A ironia de Machado e a forma de dialogar com o leitor fizeram com que eu me apaixonasse de vez. Durante a faculdade, continuei lendo os clássicos, mas, anos antes, minha paixão por leitura havia aumentado consideravelmente por causa de Harry Potter. Até hoje sou viciada na saga do bruxo conhecido por ser “o menino que sobreviveu”.

No entanto, quanto mais a carga de horário no trabalho aumentava, menos eu lia. Até que passei quase um ano inteiro sem ler livro algum. Por conta das horas de preparação de trabalhos para a licenciatura, o estágio e o trabalho numa escola particular, deixei de fazer algo que era essencial para mim. 

Nos anos seguintes, li em média três livros por ano. Muito para a média nacional, pouco para mim. As responsabilidades demandam mais tempo e mais energia de cada um de nós. Atividades que antes fazíamos rotineiramente deixam de ser prioridade. Apesar de jurar que nunca faria, passei muito tempo sem ler. Mas não deixei de consumir. Continuei comprando livros. A velocidade em os comprava era bem superior a velocidade em que os lia. Entretanto, neste ano, dei um basta nesta situação.

Como proposta de fim de ano em dezembro de 2016, decidi escrever um texto por semana, publicando como nota no Facebook e em seguida em meu blog. Eventualmente escrevo sobre algum livro. Já citei alguns aqui: As Piores Decisões da História e as Pessoas que as Tomaram, Poemas e Ensaios de Edgar Allan Poe e O Homem Mais Inteligente da História de Augusto Cury. 

O projeto consiste em anotar os nomes dos livros que ainda não li, dobrar os papéis e colocá-los numa xícara, na minha XÍCARA DE CAFÉ COM LEITURA. Sortear um livro e ler, sem prazo, tentando apenas limitar-me a um mês (passei disto com alguns livros...rs). Depois de concluída a leitura, fazer um novo sorteio e assim sucessivamente até ter lido todos os livros de minha xícara. Neste momento, estou no início da leitura do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago, sétimo livro do ano. 

Mas aí você pode perguntar: “E por que sortear ao invés de escolher? Se os livros são seus, você poder ler quando e na ordem que quiser!” Sim e não. O que estava acontecendo é que, apesar de interessar-me por livros variados, estava lendo sempre os mesmos autores! Por vezes reli diversos livros antes de ler os novos, comprados e ainda embalados! Por isso, para por em dia a leitura, decidi separar livros de autores diferentes e sorteá-los. Tem dado certo. 

Como resultado desse projeto, tenho mantido minha mente ativa e produtiva. Se produzo textos bons ou ruins, o fato é que tenho escrito! Além disso, assunto para conversar e escrever não tem faltado. Outra coisa boa é a influência que exerço nos alunos da escola onde trabalho. Tenho visto alunos interessados compartilharem comigo as histórias que têm lido. O fato de me ver sempre tentando ler, com um livro nas mãos, faz com que alguns se interessem pelo que estou lendo. Eles acompanham minha leitura fazendo perguntas: a quanto tempo estou lendo esse livro, sobre o que é o livro, se estou gostando da leitura... Querem pegar, folhear, ler um pedaço, pedem que eu leia trechos da página em que estou... Isso é magnífico!

Hoje cedo, uma aluna do 9° ano devolveu-me um livro que havia lhe emprestado na sexta-feira; O Diário de Anne Frank. Ela disse que o leu em um dia. Não fico espantada. Também fazia isso na idade dela. Outro aluno, esse do 7° ano, parou para falar comigo sobre o livro em sua mão, O Guarani de José de Alencar. Com os olhos brilhando falou-me dos protagonistas terem de enfrentar um leão. “Não sei o que vai acontecer. Quero ler logo para descobrir se vão morrer ou viver”, disse o garoto. “Depois você me conta”, disse ao aluno. 

E assim vou caminhando. De uma história à outra, cidadã da República das Palavras! Despertada por elas e despertando outros ao seu encantamento. Encantada com os mundos que se revelam em cada página. 

Até a próxima semana!


Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 25 de setembro de 2017.

Filmes de terror




Olá, para você que parou um pouquinho para ler isso!

Resolvi falar hoje de uma de minhas paixões, o cinema. Mais especificamente de filmes de terror. Isso porque assisti ontem ao recente It: A coisa, sobre o qual tecerei alguns comentários adiante.

Para entender melhor minha relação com este gênero, preciso voltar no tempo, mais de vinte anos atrás. Quando era criança, tínhamos uma TV de tela preta e branca na sala de nossa pequena e humilde casa. Meu pai passava o dia fora trabalhando e nós, meu irmão e eu, assistíamos desenho e programas infantis durante as tardes de segunda a sexta. Mas nos fins de semana, a TV era do papai. Ele assistia a programas de sua preferência e, para ficar perto dele, assistíamos também. Exceto filmes de terror. 

Meu pai não gostava de filmes assim, mas mudava muito de canal (ainda faz isso!) e foi o suficiente para termos nosso primeiro contato com filmes de terror. Certa vez, ele deixou em um canal que exibia um filme sobre vampiros. Não lembro o nome do filme. Só lembro que papai nos proibiu de assisti-lo. Ele dizia que se assistíssemos filmes assim não dormiríamos à noite. Acontece que, como crianças normais que éramos (desobedientes até certo ponto, rs), ficamos escondidos assistindo a um trecho do filme. Incrível! Mesmo sem cor, o medo genuíno da vítima, o terror em seus olhos e gritos acordou-nos para os filmes de monstros, fantasmas e demais assombrações. Pronto! O estrago estava feito!

Voltando desta viagem ao passado, passei a assistir, sempre que posso aos filmes de terror. Os que eu mais gosto são os que tratam de exorcismos. Principalmente quando em sua abertura surge a informação “Baseado em fatos reais”! Ai, meu amigo, é correr para o abraço!(ou de medo, se preferir). 

Alguns dos que eu gosto são: O iluminado, O exorcismo, O exorcismo de Emily Rose, Poltergeist, O ritual, A profecia, Arraste-me para o inferno, A entidade, Invocação do Mal, Sobrenatural Horror em Amityville e Possessão. Posso ter esquecido algum, no momento, mas basicamente são esses. Se eu recomendo algum deles? Claro! Recomendo todos! Prefiro esses aos filmes de terror trash como Jogos Mortais. Cada um tem um gosto. 

Falando nisso, lembrei-me que prometi falar de It. Gostei do filme. Em resumo. Mas, na minha humilde opinião, o marketing prometeu muito mais. O filme é, sem dúvida melhor do que seu antecessor, de 1990. A primeira vez que assisti a It: Uma obra prima do medo quase tive um treco! Fiquei com medo, não vou negar. Isso até completar alguns aniversários. Ao assistir novamente, não só não tive medo, como dormi, tão chato que achei o filme! Este último em cartaz nos cinemas, It: A coisa, é bom; garante uns sustos, umas risadas (para quebrar um pouco o clima de medo), mas exagera no humor. Filmes de terror com crianças são assustadores. Com palhaços então! Entretanto, não é o caso deste. Só o que posso dizer é bom. 

O filme levanta ainda questões como o valor da amizade, a luta contra o medo e a vitória sobre este.  São cenas bastante claras, coloridas, leves e belas contrastando com as de terror: escuras, sombrias. Não li o livro de Stephen King (é gigantesco, nem sei se conseguirei ler!), assim, vale a ida ao cinema para conferir o enredo e o trabalho dos desconhecidos jovens atores em tela. 

Pretendo, em breve, assistir a outros títulos; o próximo será Annabelle 2, para desapontamento do meu pai. Ele costuma dizer assim: “Não sei como vocês têm coragem de gastar dinheiro para ver isso no cinema!” Fazer o quê?!? Paciência! Quem mandou não escolher um canal só para assistir em nossa infância! Repito: o estrago está feito!

Até mais! 


P.S.¹: É melhor assistir aos filmes de terror de madrugada. Muito mais sinistro!
P.S.²: Se você acordar às 3:15, cubra-se até o pescoço e não se levante da cama.
P.S.³: Evite espelhos e poças d’água, principalmente se você for uma menininha loira (ou pseudo-loira, rsrs) em frente à TV.

E lembre-se, não adianta gritar. Seja lá o que for que quer te pegar,você não vai espantar com gritos. O primeiro a enfrentar o perigo sempre morre. Pessoas negras e obesas também não têm um destino muito bom... Correr nem sempre garante a sobrevivência... No mais, torça muito para ser aquele ou aquela que sobrevive ensanguentado e ferrado no final. 

Se você também curte filmes de terror, comente aí. Aceito recomendações de filmes para assistir! :D


Texto inicialmente publicado como nota em minha página do Facebook em 19 de setembro de 2017.